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Primeiro dia da NRF 2026: menos promessa, mais execução

A edição deste ano, realizada em Nova York, abriu com o tema “The Next Now”, reforçando que a transformação do varejo já está em curso, e não espera condições ideais para acontecer.
Por Sebrae RS
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O primeiro dia da NRF 2026, maior evento global de varejo, deixou um recado claro para empresários e gestores: o futuro não está em tecnologias isoladas ou discursos inspiracionais, mas na capacidade de transformar estratégia em ação concreta. A edição deste ano, realizada em Nova York, abriu com o tema “The Next Now”, reforçando que a transformação do varejo já está em curso, e não espera condições ideais para acontecer.

Na abertura oficial, Bob Eddy, chairman e CEO da BJ’s Wholesale Club, e Ed Stack, executive chairman da DICK’S Sporting Goods, posicionaram o varejo como uma força estabilizadora da sociedade. Em um cenário de pressão econômica, orçamento controlado e consumidores mais atentos a cada gasto, o setor respondeu entregando valor, mantendo acessibilidade e, ao mesmo tempo, investindo em inovação, pessoas e experiência. A mensagem foi direta: resistir não basta; é preciso evoluir enquanto o cenário segue instável.

Tecnologia como meio, não como fim

Ao longo do dia, uma ideia se repetiu em diferentes palcos: a tecnologia só faz sentido quando resolve problemas reais do negócio. Na palestra de Juliana Velozo, da Thoughtworks, o conceito foi sintetizado em uma frase que ecoou entre os participantes: tecnologia é jornada, não salto.

Segundo a especialista, conceitos como IA baseada em agentes e agentic commerce representam o futuro do varejo, mas só geram valor quando construídos passo a passo, respeitando a maturidade tecnológica de cada empresa. “Se não gera eficiência, receita ou redução de custo, não é prioridade. Tecnologia precisa emitir nota fiscal”, reforçou.

A lógica vale também para omnicanalidade. O consumidor não quer entender a estrutura interna do varejo. Ele espera fluidez entre loja física, digital e atendimento, com dados conectados, histórico preservado e continuidade no relacionamento. Integrar vendas, atendimento e comportamento do cliente deixou de ser sofisticação e passou a ser requisito básico de eficiência.

IA que executa, não apenas analisa

As apresentações do Google aprofundaram essa discussão. Fernanda Bromfman, Head of Commerce no Google Customer Solutions, destacou que a Inteligência Artificial é uma revolução diferente das anteriores porque nasce do comportamento das pessoas. O consumidor deixou de “procurar por palavras-chave” e passou a conversar com a tecnologia, explicando problemas, desejos e contextos reais. Isso elevou o nível de exigência e reduziu a tolerância a mensagens genéricas.

Gutemberg Almeida, Industry Advisor do Google Cloud, trouxe exemplos práticos dessa transformação, mostrando como agentes de IA já atuam no dia a dia das operações, apoiando vendedores, organizando informações e acelerando decisões. Em casos como o da Casas Bahia, a IA ajuda a comparar produtos, responder dúvidas e tornar o atendimento mais eficiente, enquanto o humano foca no que é complexo e relacional.

No e-commerce, a provocação foi direta: o cliente está abandonando o carrinho ou a empresa está abandonando a conversa com ele? Conteúdos visuais mais ricos, imagens contextualizadas e catálogos inteligentes, gerados com apoio de IA, já demonstram impacto direto em conversão, redução de devoluções e aumento de confiança.

Loja física segue central, mas precisa de propósito

Para o Sebrae RS, um dos pontos altos do dia foi a palestra de Fabiano Zortea, especialista em varejo e consumo do Sebrae RS, que trouxe o olhar do varejo real para o centro da discussão. O dado inicial ajuda a colocar o debate em perspectiva: no Brasil, cerca de 85% das vendas ainda acontecem na loja física. O desafio, portanto, não é decidir se a loja vai existir, mas como aumentar o fluxo qualificado, gente que entra e compra.

Zortea reforçou que o digital não concorre com o físico; ele é o principal motor para aquecer o funil. Redes sociais, comunidades e uso inteligente de dados fazem o cliente chegar mais preparado para a compra. “Atendimento que começa com pergunta vende mais do que atendimento que começa com oferta”, destacou, ao lembrar que experiência não é estética ou agrado superficial, mas serviço que resolve problemas reais da jornada.

Outro ponto central foi a ideia de comunidade como estratégia, não como discurso. Conhecer o entorno, o bairro e o público local permite criar relevância, vínculo e preferência. A loja física, nesse contexto, é espaço de relação emocional, e vínculo, no varejo, se traduz em venda, recorrência e ticket médio maior.

Fanatics e as lições para pequenos negócios

A keynote de abertura com Michael Rubin, fundador e CEO da Fanatics, reforçou uma lógica que dialoga diretamente com os pequenos negócios. O crescimento da empresa não veio de tentar agradar a todos, mas de aprofundar-se em um universo específico: o esporte. Para o pequeno varejo, a lição é clara: profundidade vence a generalização.

Outro aprendizado importante é entender o produto como porta de entrada, não como ponto final. A venda inicia o relacionamento. Cadastro simples, comunicação ativa e benefícios progressivos ajudam a construir recorrência. Velocidade, no caso do pequeno negócio, não significa tecnologia cara, mas capacidade de decidir rápido, ajustar vitrine, comunicar novidades e agir no momento certo.

IA como condição mínima de jogo

Ao final do primeiro dia, a mensagem que ficou é contundente: IA deixou de ser diferencial competitivo e virou condição mínima de jogo. Assim como web e mobile no passado, ela se torna infraestrutura invisível do varejo. Para o pequeno empresário, isso não significa virar uma big tech, mas parar de improvisar.

Organizar dados, estruturar histórico de clientes e automatizar decisões repetitivas são os primeiros passos. Como resumiu o conteúdo apresentado ao longo do dia, a IA não elimina o varejo raiz, ela separa quem profissionaliza a operação de quem continua operando no escuro.

Mais do que prever tendências, o primeiro dia da NRF 2026 foi um convite à ação. O futuro do varejo já começou, e ele favorece quem escolhe bem suas prioridades, executa com foco no cliente e transforma tecnologia em resultado real no negócio