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Geopolítica passou a conduzir a economia e precisa entrar no planejamento das empresas, diz Professor HOC na Mercopar

Cientista político analisou dependência comercial, tarifaço e guerra no Oriente Médio para plateia lotada no Palco Conhecimento e apontou oportunidades para o Brasil
Por Sebrae RS
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A economia global passou a ser regida pela geopolítica, e as empresas precisam incorporar esse risco político em cada uma de suas decisões. Esse foi o principal recado do cientista político e professor de Relações Internacionais Heni Ozi Cukier, o Professor HOC, na palestra “Os desdobramentos da economia pela dinâmica da geopolítica”, realizada nesta quarta-feira (21/10), no Palco Conhecimento da Mercopar. A Mercopar é a maior feira de inovação industrial da América Latina, realização do Sebrae RS e do Sistema FIERGS, e segue até sexta-feira (23/10) no Centro de Feiras e Eventos Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS).

Cukier abriu a palestra relacionando temas do dia a dia das empresas, como inflação, câmbio e disputas comerciais, a decisões geopolíticas. Ele dividiu a fala, que durou aproximadamente 50 minutos, em duas partes: um olhar estrutural sobre como o mundo funciona a partir da perspectiva geopolítica e a análise de dois cenários atuais, o tarifaço e a guerra no Oriente Médio.

Segundo o professor, a lógica puramente econômica não explica as disputas entre países. Uma decisão racional compara custos e benefícios, mas o que cada sociedade considera custo ou benefício depende de valores e posições políticas, e as relações comerciais são, no fundo, relações de poder. Para Cukier, a maioria das relações comerciais entre nações é de dependência, e, sem leis, tribunais e polícia no plano internacional, depender de outro país passa a ser uma questão de segurança nacional.

O professor apontou dois episódios que mudaram o comportamento dos países: a pandemia, que expôs a dependência de insumos e equipamentos vindos de um único lugar, e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Desde então, ganharam espaço estratégias como o desacoplamento da China e a estratégia “China mais um”, e a produção em países aliados (friend-shoring) e em países próximos (nearshoring). “Hoje, os países estão dispostos a pagar mais, desde que não estejam expostos ao risco político e ao risco geopolítico”, disse.

A recomendação aos empresários é incluir, ao lado dos fatores jurídicos, mercadológicos e logísticos, o risco político e o geopolítico no planejamento estratégico. “Incorporem o risco político e o risco geopolítico ao seu negócio, à sua atividade. Senão, você não vai entender para onde o mundo está indo”, afirmou.

Na parte dedicada aos cenários, Cukier analisou o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos em 2025 em quatro etapas. Na avaliação dele, o diagnóstico americano estava correto: o desequilíbrio comercial mundial teria origem em um modelo chinês que privilegia a indústria por meio de incentivos, subsídios e câmbio, e o problema é grave porque a capacidade industrial também é uma questão de segurança nacional. Já o “remédio”, disse, passou da conta e foi aplicado do mesmo modo a rivais e aliados. A reação dos mercados, com a venda de títulos da dívida americana, ajudaria a explicar em parte a desvalorização do dólar, e a China, hoje a terceira maior detentora desses títulos, vem reduzindo sua exposição à moeda americana.

Sobre a guerra no Oriente Médio, o professor lembrou que cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Hormuz e explicou como o conflito chega à economia: a alta do petróleo pressiona a inflação global e, em consequência, os juros, o que dificultaria a trajetória de queda dos juros no Brasil.

Na parte final, o professor apresentou o que classificou como uma posição favorável ao nosso país em meio ao conturbado cenário geopolítico atual. A América do Sul é o continente mais isolado dos conflitos, e o Brasil é um dos poucos gigantes em território e população, com grande produção de alimentos, energia renovável em abundância, um dos maiores ativos ambientais do planeta e a segunda maior reserva de terras raras do mundo. “Ao longo da nossa história, nunca estivemos em um lugar tão positivo”, afirmou. Para aproveitar o momento, defendeu uma política externa neutra e a redução da dependência em relação à China.

Cukier defendeu ainda um marco regulatório para as terras raras que atraia tecnologia e parceiros, com joint ventures entre empresas estrangeiras e empresas privadas brasileiras, sem venda de matéria-prima bruta. A proposta é desenvolver a cadeia inteira, com refino, processamento e agregação de valor. O professor concluiu o encontro com uma visão otimista, afirmando que o cenário atual dá ao Brasil uma rara possibilidade de definir as regras que nos são mais vantajosas, já que o mundo tende a aceitá-las.

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