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No mês da Mulher, Sebrae RS destaca as 583 mil empreendedoras que impulsionam a economia gaúcha

Pesquisa GEM 2024 aponta crescimento da presença feminina nos pequenos negócios e revela desafios ligados à renda, formalização e acesso a crédito
Por Sebrae RS
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Do interior à capital, elas transformam conhecimento em negócio, tradição em marca, experiência em inovação. Estão no campo, na indústria, na ciência, na tecnologia e na saúde. No Rio Grande do Sul, 583 mil mulheres estão à frente do próprio empreendimento, o equivalente a 34% dos pequenos negócios no Estado, segundo dados da GEM (Global Entrepreneurship Monitor) 2024.

A maioria atua no setor de serviços (51%), seguida por comércio (22%), agronegócio (14%) e indústria (13%). Trabalham, em média, 37 horas por semana e, em 60% dos casos, são as principais responsáveis pelo domicílio. O perfil predominante está entre 30 e 54 anos, faixa que concentra quase 60% das empreendedoras, e 36% possuem ensino superior ou pós-graduação.

Para Susana Stroher, Coordenadora do Sebrae Delas RS, o aumento da participação feminina entre novos negócios indica um movimento de ampliação do acesso ao empreendedorismo. “Muitas mulheres começam a empreender por necessidade ou pela busca de flexibilidade para conciliar trabalho e responsabilidades familiares. Ao mesmo tempo, cresce o empreendedorismo por oportunidade, com mulheres buscando mais autonomia e a consolidação dos seus negócios, especialmente em áreas como serviços, cuidado e bem-estar”, afirma.

De acordo com a coordenadora, o desafio agora é ampliar as condições para que esses negócios cresçam de forma sustentável, especialmente no acesso a crédito, mercado e oportunidades de expansão. Reforça que “o apoio precisa ir além da gestão, combinando visão estratégica, competitividade e o desenvolvimento de competências socioemocionais, como confiança, liderança e posicionamento”.

É nesse cenário que os números encontram rostos e trajetórias concretas.

Do campo à inovação: identidade, sustentabilidade e agro 

Em Poço das Antas, no Vale do Taquari, o vinho ganhou significado que vai além da taça. Foi ali que Miriam Guedes Santiago Krindges decidiu reinventar a propriedade da família, apostando na produção de vinhos, espumantes e sucos, aliada ao turismo rural. Em uma região pouco tradicional na viticultura, o desafio era duplo: produzir e convencer.

Mais do que consolidar um negócio, Miriam queria contar uma história. A proposta de afroturismo e representatividade passou a fazer parte da identidade da marca. “Eu queria que as pessoas chegassem aqui e se reconhecessem. Não é só sobre vinho, é sobre identidade e pertencimento”, explica.

Empreender no meio rural, segundo Miriam, exige persistência. “A gente precisa provar o tempo todo que é capaz. O acesso a crédito não é simples e muitas vezes a desconfiança vem antes da oportunidade”.

Na Campanha Gaúcha, em São Gabriel, Maria Cristina Rodrigues da Cunha transformou o vínculo familiar com a terra em um projeto estruturado de produção de azeite de oliva. O primeiro pomar foi implantado em 2010 e, desde então, o investimento em qualificação tornou-se parte da estratégia, incluindo formação na Espanha. O potencial do Rio Grande do Sul se confirmou com premiações em concursos internacionais. Com indústria própria na fazenda, a empresa processa azeite próprio e de terceiros, consolidando uma marca associada à confiança e rigor técnico.

“Qualidade é método, é estudo constante. O mercado é exigente e precisamos estar preparadas”, destaca Maria Cristina. Para ela, ocupar espaço no agro ainda significa enfrentar estereótipos: “mostrar competência técnica é a melhor forma de ocupar esse espaço”.

As duas trajetórias refletem um dado importante da pesquisa: embora representem 14% dos negócios femininos, as mulheres no agronegócio avançam com cada vez mais qualificação e posicionamento estratégico.
 
Ciência, tecnologia e novos mercados 

Se no campo o desafio é tradição e território, na ciência ele passa por inovação e validação constante. Em Caxias do Sul, a Lander transformou resíduos da indústria da uva em modelo de negócio. As quatro sócias, Andréa Mutti de Morais, Luciana Mutti de Morais, Carina Cassini e Valeria Weiss, criaram a Lander com base no upcycling, reaproveitando sementes descartadas na produção de vinhos e sucos para extrair óleo vegetal rico em ativos cosméticos. A proposta une ciência, identidade regional e sustentabilidade, estruturando uma cadeia que vai da coleta ao desenvolvimento de produtos veganos de autocuidado. “Quando entendemos o potencial daquele resíduo, vimos que havia ali um diferencial consistente”, afirma Luciana.

A sustentabilidade é premissa da marca, presente na produção local, nas embalagens recicláveis e nas formulações sem uso de água. Para consolidar a gestão e o posicionamento, a empresa participou de programas de aceleração do Sebrae voltados ao e-commerce e à estrutura comercial. A farmacêutica Andréa destaca que “os aprendizados em finanças, estoque e estratégia foram decisivos para amadurecer nossas decisões”.

No Vale do Sinos, Adriana Bender lidera uma das iniciativas mais disruptivas do país. Cofundadora e CFO da Insect Protein, sediada no Feevale Techpark, ela comanda a única empresa do Brasil certificada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para o processamento do inseto Tenebrio molitor. A startup utiliza o ciclo biológico do inseto para converter resíduos da indústria do trigo em proteína de alta performance para nutrição animal e fertilizante orgânico.

O projeto é um caso real de economia circular com foco no desperdício zero. “Nosso desafio transcende o desenvolvimento do produto. Trata-se de educar o mercado sobre segurança, sustentabilidade e viabilidade”, pontua Adriana. Para ela, empreender em base tecnológica exige resiliência: “entre testes rigorosos e certificações, o que nos move é ver a inovação ganhando espaço e gerando impacto real”.

A presença feminina em setores científicos e tecnológicos reforça a diversificação do empreendedorismo no Estado e amplia o impacto econômico dessas iniciativas.

Saúde, maturidade e propósito 

Na área da saúde, o empreendedorismo feminino surge, muitas vezes, da vivência direta dos desafios do setor.

Em Porto Alegre, Laura Severo da Cunha criou a Luthier ao perceber que domínio técnico em saúde não garante sustentabilidade do negócio. Doutora em educação e saúde, identificou a necessidade de estruturar modelo comercial, posicionamento e visão estratégica para transformar propósito em empreendimento viável. A empresa atua na interseção entre gestão e educação em saúde, com foco em organização, previsibilidade e sustentabilidade financeira. “Impacto na saúde exige organização e método. Sem estrutura, a iniciativa não se sustenta”, resume.

Empreender no setor envolve desafios como alta regulação e cultura tradicional. Laura conta que o apoio do Sebrae foi determinante no início, inclusive com subsídio para participação na Feira Médica na Alemanha, ampliando repertório e rede de contatos. “A experiência trouxe visão de escala e segurança para estruturar o negócio”.

A experiência familiar foi o ponto de inflexão na trajetória empreendedora de Ana Lúcia Roth. Ao acompanhar por anos o tratamento oncológico do pai e, mais recentemente, a rotina de cuidados com a mãe diagnosticada com Alzheimer, percebeu o impacto da desorganização das informações médicas no dia a dia das famílias. “Eu vivi o problema antes de pensar na solução. Quando precisei compreender, em poucos meses, uma trajetória clínica construída ao longo de uma década, entendi que a falta de organização compromete decisões e aumenta a vulnerabilidade de quem cuida”, relata. A partir dessa vivência, passou a estruturar a ehDoc TeleHealth, plataforma voltada à centralização segura de dados de saúde e ao suporte ao teleatendimento, com foco em autonomia familiar e maior agilidade nas condutas médicas.

Ana Lúcia iniciou seu projeto após os 50 anos, o que significou transformar bagagem profissional em estratégia e, ao mesmo tempo, adaptar-se ao ritmo acelerado das inovações tecnológicas. “Os cabelos brancos trazem serenidade para decidir e humildade para aprender. Liderar um time jovem e altamente tecnológico exige escuta ativa e disposição permanente para evoluir”. Segundo a empreendedora, a telemedicina não substitui o atendimento presencial, mas organiza e qualifica o cuidado, especialmente para mulheres que acumulam múltiplas responsabilidades e precisam de soluções mais eficientes.

Protagonismo que cresce e exige suporte estruturado 

O avanço da participação feminina entre empreendedoras iniciantes, apontado pela GEM 2024, sinaliza um movimento consistente de ampliação do protagonismo econômico das mulheres no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, os números reforçam a necessidade de ampliar acesso a crédito orientado, formalização e estratégias de crescimento sustentável. “Quando fortalecemos uma mulher empreendedora, fortalecemos a economia, famílias e a sociedade como um todo”, resume Susana Stroher.

Mais do que estatística, o empreendedorismo feminino no Estado é feito de decisões corajosas, reinvenções profissionais e construção de autonomia. Das pequenas propriedades rurais às startups de base tecnológica, das salas de atendimento em saúde aos laboratórios de inovação, essas mulheres não apenas movimentam a economia, elas redefinem o espaço que ocupam.

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